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Promessa que virou tradição: romaria de Santa Teresinha reúne fé e cultura no interior
Tássia Tanara
Jornalista formada pela PUC-GO
A peregrinação reúne comunidades rurais em uma celebração marcada pelo resgate cultural, pela memória coletiva
O que começou como uma promessa pessoal, em meio a dificuldades financeiras, se transformou em um evento de religiosidade popular. A romaria de Santa Teresinha, realizado anualmente no último fim de semana de setembro, reúne hoje dezenas de comunidades e milhares de participantes em um percurso que mistura devoção, história e identidade.
A origem da romaria começou em 2016 quando Ronaldo Delgado enfrentava uma situação financeira delicada. Devoto por influência familiar, neto de Ambrosão, responsável pela construção da primeira capela da comunidade do Val, ele recorreu à fé em Santa Teresinha. Como promessa, comprometeu-se a transportar a imagem da santa em um trajeto de aproximadamente 11 quilômetros, entre Ponte Velha e a comunidade do Val, utilizando carro de boi, caso conseguisse quitar a dívida.
Com a graça alcançada, a promessa foi cumprida. Inicialmente, três carros de boi participaram do percurso, levando a imagem da santa ao amanhecer para a missa festiva. A iniciativa, que seria um ato individual, acabou mobilizando a comunidade, gerando forte comoção e despertando um sentimento coletivo de pertencimento. A peregrinação passou a ser visto como um resgate das origens.
Crescimento e integração entre comunidades
No ano seguinte, o evento ganhou continuidade a partir de um pedido feito por moradores de outra comunidade, ampliando seu alcance. A cada edição, novas localidades passaram a integrar o percurso. O crescimento foi gradual, chegando a reunir cerca de 2 mil pessoas em determinados momentos. Ao longo dos anos, a romaria passou por diferentes comunidades, incluindo Pedra Branca, Ponte Velha e até a sede de Correntina, antes de retornar ao meio rural por questões logísticas.
Hoje, o evento reúne cerca de 26 comunidades dos municípios de Correntina e Santa Maria da Vitória. O festejo ocorre durante três dias, sexta, sábado e domingo, sempre no último fim de semana de setembro. A escolha da data antecede o dia dedicado à santa, celebrado em 1º de outubro.
Música, convivência e cultura popular
A estrutura do encontro inclui a recepção dos participantes, momentos de convivência e uma noite cultural no sábado. Essa programação cultural valoriza a música de raiz, com apresentações de violeiros e artistas ligados à tradição sertaneja.
No domingo, os participantes percorrem cerca de 20 quilômetros em peregrinação, passando por comunidades rurais até buscar a imagem da santa, que segue para a celebração religiosa. O trajeto, feito com carros de boi, reforça o vínculo com práticas tradicionais do campo.
Mais do que uma celebração religiosa, a jornada é descrita pelo organizador como um movimento de resgate cultural. A proposta vai além da devoção individual, promovendo integração entre comunidades, valorização da história local e fortalecimento de laços sociais.
“Não é uma festa comum. É um evento que resgata valores, cultura e história das pessoas. A gente consegue unir comunidades inteiras em torno da fé e das nossas tradições”, afirma Delgado.
Crença
A devoção a Santa Teresinha também ocupa papel central no evento. Conhecida como a “Santa das Flores”, ela dedicou sua vida à fé cristã desde muito jovem, ingressando em um convento ainda na adolescência. Sua trajetória é marcada pela simplicidade, pela espiritualidade e pelo compromisso com o próximo, o que contribui para a identificação dos fiéis com sua história.
Realizado ininterruptamente desde sua criação mesmo diante de desafios, a romaria de Santa Teresinha se consolidou como uma manifestação que une fé e tradição, mantendo viva a memória coletiva e os valores do interior.



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