Voltar à escola é só o primeiro passo: EJAI enfrenta desafio de manter estudantes até a conclusão
Tássia Tanara
Jornalista formada pela PUC-GO
Histórias de quem interrompeu os estudos mostram os obstáculos para permanecer na sala de aula; busca ativa, apoio aos estudantes e cursos profissionalizantes fazem parte das estratégias adotadas para enfrentar a evasão
Aos 57 anos, Ana Maria Betinha voltou a estudar com um objetivo que parece simples, mas que durante décadas esteve distante de sua realidade: aprender a ler. Ela deixou a escola ainda criança, depois da morte do pai, e passou boa parte da vida dependendo de outras pessoas para compreender documentos, mensagens e informações escritas. Agora, frequenta uma turma de alfabetização da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e tenta recuperar, na vida adulta, uma etapa que precisou interromper na infância.
A história de Ana Maria ajuda a dimensionar um dos desafios da modalidade: não basta conseguir que o estudante volte para a escola; é preciso criar condições para que ele permaneça. Na rede municipal, a EJA reúne pessoas com trajetórias bastante diferentes, desde jovens que interromperam os estudos para trabalhar até adultos e idosos que passaram décadas afastados da educação.
Segundo dados apresentados pela Secretaria Municipal de Educação, o número de matriculados passou de menos de 200 em 2024 para mais de 750 em 2026. O crescimento mostra uma procura maior pela modalidade, mas não permite, por si só, concluir que os estudantes estejam permanecendo ou concluindo os estudos. É justamente nessa etapa que aparecem algumas das principais dificuldades.
Trabalho, cansaço e distância
Para muitos estudantes, frequentar a escola significa encaixar os estudos em uma rotina que já inclui trabalho, responsabilidades familiares e, em alguns casos, deslocamentos entre comunidades rurais e a sede do município. O cansaço depois de uma jornada de trabalho e a falta de tempo podem pesar na decisão de continuar frequentando as aulas.
A coordenadora pedagógica da EJAI, Mônica Souza, acompanha o trabalho pedagógico em 22 escolas e relata que essas dificuldades aparecem no contato cotidiano com os estudantes. Além dos fatores práticos, ela identifica também uma barreira menos visível: a insegurança de quem passou muitos anos longe da escola e acredita que não conseguirá aprender. “A jornada dupla ou tripla de trabalho, a família, a escassez de tempo, o cansaço no final do dia e também as barreiras emocionais são muitos fatores.”
Nas comunidades rurais, o transporte é outro ponto de atenção. Durante o período de chuvas, as condições das estradas podem dificultar o deslocamento até as escolas. Há ainda estudantes que trabalham até o fim da tarde e precisam conciliar o horário do serviço com a passagem do transporte escolar. Por isso, a frequência passou a ser acompanhada de forma mais próxima. E quando o estudante acumula faltas, a equipe procura identificar o motivo e, quando necessário, realiza a busca ativa. A estratégia também envolve agentes comunitários de saúde e agentes de endemias, que podem ajudar a localizar estudantes que estão se afastando.
Na sala de aula, Ana Maria está no processo inicial de alfabetização. Ela conta que, quando sente dificuldade, a professora a incentiva a continuar. A experiência também mudou a forma como enxerga a própria idade diante dos estudos. Ela ainda alimenta planos maiores, entre eles, continuar estudando e, quem sabe, chegar à profissão que o pai sonhava para um dos filhos.
Apoio tenta reduzir as razões para o abandono
A Secretaria de Educação oferece atualmente transporte, alimentação, material escolar e uniforme aos estudantes da EJAI. Também existe um incentivo relacionado à frequência: alunos com pelo menos 70% de presença recebem uma cesta básica mensal. O secretário de Educação, Esporte e Lazer, Clériston Mota, afirma que a intenção é acompanhar o estudante antes que a ausência se transforme em abandono. “Quando a gente percebe que ele falta duas vezes consecutivas, acende um alerta. Aí a gente, em parceria, faz as visitas, faz a busca ativa.”
A estratégia parte de uma constatação simples: uma ausência pode ter diferentes motivos. O estudante pode estar trabalhando, enfrentar dificuldade de transporte, ter um problema familiar ou simplesmente estar desestimulado. Identificar a causa é necessário antes de tentar recuperar a frequência. A escola também tem buscado criar atividades que aproximem o conteúdo da realidade dos alunos, em algumas unidades, as aulas incorporam atividades culturais e práticas relacionadas às comunidades onde os estudantes vivem. A proposta é evitar que a experiência escolar seja percebida apenas como uma obrigação para quem já possui uma rotina cheia de outras responsabilidades.
Formação profissional entra como estímulo adicional
A oferta de cursos profissionalizantes em parceria com o Senai aparece nesse contexto como uma iniciativa complementar, a ideia é associar a formação escolar a uma possibilidade de qualificação para o trabalho, especialmente entre estudantes que interromperam os estudos justamente para trabalhar. Na nova etapa, os estudantes terão acesso a cursos em áreas como panificação, massas, eletricidade, mecânica, refrigeração e produção de alimentos. A formação possui carga horária de 160 horas e será integrada à rotina da EJAI, com dias destinados às aulas regulares e outros às atividades profissionalizantes.
Para quem já trabalha ou busca uma oportunidade de renda, a possibilidade de concluir a educação básica e, paralelamente, adquirir uma formação profissional pode representar uma motivação adicional para continuar frequentando a escola. Mônica cita o caso de um estudante idoso que trabalhava como mecânico e viu no curso uma oportunidade de ampliar e reconhecer formalmente conhecimentos adquiridos ao longo da vida, mas a profissionalização não elimina as dificuldades que levam um estudante a faltar ou abandonar os estudos. Ela funciona como mais um elemento dentro de uma trajetória que depende, antes de tudo, da possibilidade concreta de conciliar escola, trabalho, família e deslocamento.
O aumento das matrículas coloca a EJAI diante de uma nova etapa. Se antes a questão era alcançar pessoas que estavam fora da escola, agora também é necessário acompanhar o que acontece depois que elas retornam. A trajetória de Ana Maria mostra que a busca pela educação pode permanecer viva por décadas. Ao mesmo tempo, as dificuldades relatadas pela coordenação revelam que o abandono não está necessariamente ligado à falta de interesse pelos estudos. Muitas vezes, ele está relacionado às condições em que esse estudante precisa estudar. A questão, portanto, não termina na matrícula. Para a EJAI, o desafio é fazer com que o retorno deixe de ser uma passagem interrompida e se transforme em uma trajetória capaz de chegar à conclusão dos estudos.



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